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terça-feira, 30 de junho de 2009

Como trabalhar Questões Étnico-Raciais na Escola?




Padrões de beleza; valorização do diferente e igualdade de direitos. Estes foram alguns dos conceitos abordados na prática aplicada numa turma de Educação Infantil de 3 anos! Um estilo musical pouco valorizado na cultura predominantemente germânica de Ivoti foi a trilha sonora que animou nossas atividades: o samba!

Dentre os diferentes momentos realizados, destaco o 5º e o 6º:

Ouvir a faixa musical de um samba em que crianças anunciam os instrumentos musicais - cuíca, agogô, surdo, reco-reco, pandeiro e tamborim – e dançar livremente, revezando o manuseio de alguns desses instrumentos - agogô, reco-reco e pandeiro – disponíveis na escola.

Observar, identificar e nomear, nas imagens e vídeos apresentados... os instrumentos citados na música, bem como a maneira como são tocados e o som que produzem. Comparar com nossa experiência na sala de aula e repetir o 5º momento, agora com um novo olhar, sob uma nova perspectiva...


A reflexão sobre a aplicação deste planejamento foi uma experiência muito prazerosa...

A faixa musical do samba no qual vozes de crianças anunciam os instrumentos musicais - cuíca, agogô, surdo, reco-reco, pandeiro e tamborim – foi recebida com curiosidade e um certo espanto, afinal, este não é bem o gênero musical mais difundido em nossa cidade...
Todos ouviram com atenção o nome dos instrumentos e logo memorizaram quais a escola possui e quais não possui. Dançamos com entusiasmo, revezando o manuseio dos instrumentos disponíveis - agogô, reco-reco e pandeiro.
... quando anunciei que a turma teria a oportunidade, no dia seguinte, de ver e ouvir os demais instrumentos no computador da sala dos professores, a vibração foi muito grande!
Então, acomodados em almofadas no chão, em frente ao computador, fui acessando os vídeos previamente selecionados do YouTube, destacando a maneira como os instrumentos eram manuseados. A atenção dos alunos até me surpreendeu, assim como o longo tempo que permaneceram concentrados.
De volta à sala de aula, ouvimos novamente a música e todos tiveram a oportunidade de tocar novamente o instrumento de sua preferência, dessa vez com um pouco mais de habilidade e entusiasmo!

Assistimos aos seguintes vídeos:

CUÍCA - AGOGÔ - SURDO - RECO-RECO - PANDEIRO - TAMBORIM

O desenvolvimento desta série de atividades proporcionou momentos de alegria e aprendizado tão genuinamente espontâneos que seu registro certamente servirá de base para futuras reedições, pelas quais já anseio.
Encerro minhas reflexões sobre esta prática com um dizer que sintetiza a sua importância de forma muito clara:
“Múltiplas histórias, experiências e culturas devem ter espaço para ali dizer suas verdades, que se cruzam, e cruzam as fronteiras...” (Corazza, 1998)

OBSERVAÇÃO: para acessar a proposta de trabalho e as reflexões na íntegra, clique aqui.


REFERÊNCIAS:

http://www.acordacultura.org.br/main.asp?View=%7B78A1444E-58D7-490A-837D-C9C1CE0368AF%7D. Acesso em: 26. jun. 2009.

http://www.pensador.info/autor/Nelson_Mandela/ Acesso em: 30 mai. 2009.

LEITE, Luciane Andréia Ribeiro. Era uma vez uma menina muito bonita. Uma prática pedagógica relacionada com a questão racial em uma turma de alfabetização. Texto digitado. PEAD, 2009. UFRGS, Porto Alegre, RS.

YouTube - Broadcast Yourself. Acesso em: 26. jun. 2009.




sábado, 30 de maio de 2009

"Entrevistas" na Educação Infantil... um desafio!



Um desafio e tanto! Assim posso classificar a unidade 3 da inovadora interdisciplina de Questões Étnico-Raciais na Educação: Sociologia e História. Como atuo com crianças de aproximadamente 3 anos e não teria como aplicar as entrevistas em outra escola, optei por adaptar uma atividade com outra turma da escola, com alunos acima de 4 anos. Meu objetivo foi tentar perceber se o aluno identifica algumas características que definem sua etnia e como se sente com relação a isso. Resumindo, foi assim:

...

Como a maioria dos 20 alunos da turma já me conhecia, as apresentações foram breves e eu iniciei a dinâmica com todos sentados em círculo sobre o tapete da sua sala . Apresentei uma caixinha muito antiga e misteriosa – meu velho porta-jóias de madeira – e expliquei que cada um de nós, ao abri-lo, poderia - ou não - visualizar um tesouro muito raro e valioso, descrevendo-o em voz alta para todos, se assim desejasse. Os primeiros a abrirem a tampa da caixinha, ficaram confusos, pois não havia nada lá dentro, além do espelho preso à própria tampa.
- O que tem lá dentro? – insisti.
- Tem eu! – respondeu a menina, deslumbrada diante de sua imagem, como se fosse a primeira vez que a confrontasse ao espelho.
- E como tu és? – desafiei. – Teus olhos, teus cabelos, tua pele...


E então todos compreenderam a proposta e passaram a se descrever no momento em que empunhavam a “caixinha mágica”, inclusive auxiliando os colegas mais tímidos a verbalizar características como a cor e o formato dos olhos, a tonalidade da pela, a cor e a textura dos cabelos, entre outras. Além disso, eu questionava se a sua imagem lhes era agradável, se eram perecidos com o pai, a mãe, os avós, se se consideravam bonitos, se os colegas concordavam...
- SIIIIM !!! - era a resposta a todas essas indagações.
Por coincidência, o último a abrir a caixinha e falar sobre suas características foi um menino mulato e, quando ele se calou, eu ia encerrar esta parte da brincadeira, mas ele voltou a falar, dizendo que tinha esquecido de dizer algo:
- Faltou a cor da pele... escura! E os meus cabelos são enrolados!
E, como eu perguntara a todos, indaguei:
- E tu te achas bonito?
- Sim, eu sou lindo! – respondeu ele, com um sorriso meio envergonhado, decerto pela falta de modéstia, mas coberto de razão, pois ele é lindo mesmo e vive ouvindo esses elogios...

Ao menos neste momento, o aluno afro-descendente não demonstrou vergonha por algumas das características que definem a sua etnia, pelo contrário, demonstrou orgulho e confiança, destacando que sua mãe – provedora de MUITO afeto - lhe diz que ele é lindo. Durante a dinâmica, a professora da turma e os colegas concordaram com ele – sobre ser lindo, o que considero um importante passo inicial no estabelecimento de relações interpessoais libertadoras do processo de aprender.


Apesar da triste realidade de discriminação que prevalece na sociedade, espero, sinceramente, que a auto-imagem positiva e a relação de amor com a escola e com os colegas prevaleçam por toda a vida desse menino, pois, como bem lembra uma personalidade negra de grande influência no mundo atual... "ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar." (Nelson Mandela)

...

Acredito que a escola e os professores, de modo geral, não estão preparados para atenderem a todas as necessidades descritas de maneira satisfatória, pois ambos provém de um modelo arcaico de evolução e formação que, infelizmente, ainda está impregnado por um ranço discriminatório difícil de apagar.


O professor consciente de seus deveres pode, com criatividade, conciliar os conteúdos a serem desenvolvidos em sua sala de aula com os anseios de seu alunado afro-brasileiro. Isto é possível se ele entende e valoriza as diferentes culturas existentes e modifica as crenças preconceituosas sobre os alunos. Atividades e discussões acerca das riquezas originadas pela diversidade observada em cada espaço educativo - e em cada núcleo familiar – certamente contribuem positivamente para o sucesso dessa caminhada rumo à aprendizagem significativa de todos os alunos - negros, brancos, pardos, índios... enfim, seres humanos capazes de construir uma história escolar digna de orgulho.

segunda-feira, 30 de março de 2009

EU... E OS OUTROS


O que uma foto de família antiga tem a ver com "EPNEE"?
Ou com "QUESTÕES ÉTNICO-RACIAIS NA EDUCAÇÃO"?

Percebo que o "diferente" na aparência, na maneira de agir ou de falar (quase) sempre é alvo de julgamento, e posterior aceitação ou rejeição, seja no ambiente familiar, escolar ou nos outros grupos sociais.

Todos nós, nosso corpo e nossa mente, somos fruto da herança genética e cultural dos nossos ancestrais. Dificilmente podemos fugir disso... Devemos, sim, aprender a admirar as implicações positivas dessa ancestralidade em toda a sua amplitude!

E isso é uma aprendizagem que deveria começar cedo, no seio familiar e na escola de educação infantil! Nesse sentido, lembro do relato da mãe (branca) de um menino (mulato), que lhe contou que seu colega (de 4 anos) o chamara de "negrinho" numa discussão. Eu, como professora, não ouvi, na época, a discussão, mas passei a ficar mais atenta durante os momentos de brincadeira livre para, se necessário, intervir em tal discriminação.

A revista Nova Escola aborda o assunto numa edição de 2007, ressaltando que o respeito às diferenças é uma lição que deve ser ensinada desde os primeiros anos de escolaridade.

Vale a pena conferir:

Não ao preconceito